sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dilma do PT vence a oposição e a mídia hostil e se transforma na primeira mulher presidente do Brasil

de CIP Americas Program

Segunda-Feira, 5 de Novembro, 2010

A Candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, será a primeira mulher presidente na história brasileira. Ela foi eleita esse domingo, 31 de outubro, com um pouco mais de 56 por cento dos votos, vencendo o candidato conservador José Serra por doze pontos. Em seu discurso de vitória, Dilma clamou pela união e agradeceu ao presidente cessante Luiz Inacio “Lula” da Silva. Os apoiadores da Dilma foram às ruas, enchendo a avenida Paulista, em São Paulo.

Mas a vitória não foi fácil. O debate do segundo turno girou em torno de temas como aborto, religião, escândalos, e uma mídia deliberadamente focada em derrotar o representante da esquerda.

“O debate eleitoral este ano não foi como esperávamos, um debate sobre as propostas para o país, para o desenvolvimento e inclusão social”, disse Celso Woyciechowski, presidente da maior federação de trabalhadores do Brasil, a CUT, no estado do Rio Grande do Sul.

“Infelizmente, o debate se polarizou em questões que são importantes, mas não são prioridade em termos de propostas para o país. Especialmente quando o candidato José Serra tentou focar em questões que dividem a sociedade, como aborto e religião,” disse Celso.

Essas questões foram predominantes no debate um mês atrás, tendo ambos os candidatos buscado atrair os votos de evangélicos que apoiaram a candidata do Partido Verde Marina Silva no primeiro turno, em grande parte responsáveis pelos seus notáveis 20% dos votos. Serra opôs-se firmemente ao aborto, baseado no que ele chamou de seus “valores cristãos”. A candidata do PT, Dilma Rousseff, foi mais sutil sobre o tema, dizendo-se a favor do aborto em casos extremos. Muitos acreditam que ela tenha sido pressionada a não adotar uma postura mais progressiva pelo debate eleitoral e pela Igreja Católica.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Estatística, IBOPE, por volta de 70% da população brasileira são contra o aborto, mas muitos brasileiros afirmam que o mesmo não deveria ser tema de campanha.

“É covardia levar esse tema para o debate eleitoral. Nunca se levantou este assunto em uma séria discussão democrática em que todos pudessem se expressar, especialmente as vítimas. Em vez disso, eles levantam o tema no calor do momento eleitoral para derrubar o seu adversário de forma antidemocrática,” diz Cristóvão Feil, sociólogo e editor do blog Dario Gauche há quatro anos.

A mídia entrou na questão e criticou fortemente o posicionamento brando da Dilma, enfraquecendo a sua liderança nas pesquisas.

Em 10 de outubro, O Globo, o jornal do maior canal de televisão brasileiro, publicou a manchete: “O aborto ilegal mata uma mulher a cada dois dias.” Apenas no final do artigo, em uma das páginas de trás o artigo menciona que a maioria dessas mortes se referem a mulheres pobres que não têm outra opção que não se submeter a procedimentos perigosos em clínicas clandestinas – um problema que poderia ser solucionado tratando-se o aborto como um problema de saúde pública como muitos já solicitaram, inclusive o presidente Luis Inacio “Lula” da Silva e Maria Jose Rosado Nunes, coordenador da ONG Católicos pelo direito de Decisão. (1)

Doze páginas no mesmo jornal, outra manchete que diz: “Lula admite: a disputa está mais difícil”. À mesma se seguiu um artigo tão longo quanto intitulado: “Líderes de Estado serão o Triunfo de Serra”.

“A mídia está basicamente fazendo campanha para o candidato [Serra]”, diz Jefferson Pinheiro essa semana, membro do coletivo de mídia local, que já tem seis anos, Catarse, em Porto Alegre.

“Muitas vezes eles ignoram completamente as éticas jornalísticas, manipulam abertamente, omitem informações. E, embora nós já esperássemos isso da mídia, o que já é desencorajador, nesta eleição, em especial, eles ultrapassaram todos os limites.”

A mídia cobriu amplamente a esposa de José Serra, Monica, que acusou a Dilma de ser a favor da “matança de bebês” enquanto fazia campanha com o candidato a vice-presidente do seu marido, Indio da Costa (DEM), no estado do Rio de Janeiro, em setembro. (2) Ironicamente, Monica levou inadvertidamente o vigor da mídia com relação ao tema do aborto a um fim abrupto em meados de outubro, quando vazou a informação de que ela mesmo teve um aborto. (3)

Quando parecia que os candidatos chegariam a um debate real, saiu a notícia, em outubro, de que José Serra foi atingido por um projétil durante a sua campanha no Rio de Janeiro. Serra tirou folga pela manhã e culpou os violentos apoiadores da Dilma. A rede de televisão do Rio, a Globo, rapidamente editou um vídeo mostrando o ataque. No fim das contas, o objeto era uma bola de papel. Bloguistas ridicularizaram o exagero da mídia. Até mesmo empregados da Globo de São Paulo expressaram a sua vergonha em serem associados à produção.

Na mídia impressa, a Folha de São Paulo foi exposta por publicar fichas criminais falsas da Dilma Rousseff, e outros jornais publicaram histórias do seu envolvimento alegado em seqüestros enquanto lutava contra a ditadura brasileira. Durante toda a campanha, a revista de direita Veja publicou semanalmente histórias ligando Dilma a escândalos de corrupção e mostrando o seu partido como uma besta faminta por poder.

“As matérias de capa da revista Veja, por exemplo, uma após a outra são criminais. O que eles estão fazendo de fato encosta no criminal, pois são desinformações, informações fora de contexto, mentiras muitas vezes, e eles sem dúvida influenciarão o voto de muitas pessoas”, diz Pinheiro.

Pouco após o primeiro turno das eleições deste ano, membros de movimentos sociais, sindicatos, e mídia independente do Brasil protestaram, em São Paulo, contra o que eles chamaram de golpe de mídia em andamento. O presidente cessante Lula da Silva reiterou na semana passada que a mídia brasileira está nas mãos de 9-10 famílias.

O Brasil tem uma longa história de manipulação da mídia. A ditadura de 20 anos (1964-1984) era muito ligada à mídia corporativa do Brasil. Alguns analistas especulam que o presidente Lula da Silva perdeu a sua primeira eleição à presidência da república em 1989 devido à cobertura manipulada pela Rede Globo de Televisão. O documentário britânico de 1993, Beyond Citizen Kane (Muito Além do Cidadão Kane), de Simon Hartog salienta o papel mordaz da Rede Globo e do seu poderoso dono Roberto Marinho.

“No Brasil, nós não temos um monopólio, o que temos é um oligopólio”, diz Pinheiro. “Mais de 90% de toda a informação, notícias e jornalismo que são produzidos no Brasil estão nas mãos de seis grandes grupos, que são grupos de empresários. Como nós sabemos em todo o planeta, a comunicação nas mãos de empresários serve aos seus interesses políticos e econômicos na defesa da sua classe social, que tem o poder econômico.”

Os três maiores conglomerados são Abril, Globo e Band. A Abril controla o mercado editorial brasileiro e também é dona da MTV Brasil. Sete das dez revistas mais lidas no país são propriedade da Abril, inclusive a Veja que é a revista semanal com a maior circulação no mundo fora dos Estados Unidos. A Globo tem a maior rede de televisão do país, controlando 340 canais e afiliados pelo o Brasil. A Band, ou o Grupo de Comunicação Bandeirantes lidera com a cobertura de esportes com 144 canais e 22 afiliados.

Mas apesar do histórico de tendências da mídia, analistas de base afirmam que este ano a cobertura da mídia está ainda pior do que o normal.

“A campanha entre o partido do Serra e a mídia corporativa foi mais articulada, utilizando técnicas das eleições dos Estados Unidos com Sarah Palin,” diz Claudia Cardoso, uma ativista de mídia de longa data e coordenadora regional do congresso de comunicação nacional. “Eles estavam organizados. Representantes de jornais, rádio e TV se encontraram em março deste ano e se organizaram para essa campanha. Isso é que é mais preocupante.

Em uma excelente análise da tendência da mídia durante a campanha, o jornalista Alexandre Haubrich escreveu em seu blog, Jornalismo B, em 20 de outubro:

“Nessa campanha, nós vemos a imprensa dominante se organizando contra o governo Lula e a candidatura de Dilma Rousseff, principalmente através de três dos seus jornais (Folha de São Paulo, Estadão e O Globo), duas revistas (Veja e Época) e um canal de televisão (TV Globo). Através de acusações constantes em artigos e ataques diretos em editoriais, os jornais cumpriram o poderoso papel de despolitizar a campanha, e oferecer questões ao debate que têm pouco ou nada a ver com propostas mais amplas para o país.”

De acordo com Cardoso, a mídia brasileira consegue de se safar de coisas das quais não conseguiria em outro lugar, pois o conteúdo e a propriedade da mídia são completamente desreguladas. O Brasil não tem um comitê regulatório como a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (U.S. Federal Communications Commission (FCC)). O coletivo de mídia, Intervozes, diz que mesmo que a tentativa da FCC de desregulamentação da consolidação da mídia tivesse sido aprovada em 2004, ainda assim os Estados Unidos teriam leis mais fortes do que o Brasil. (5)

“Quando se tem uma mídia que funciona ferozmente, que não é regulada, e não há formas de participação da sociedade na mudança da sua forma de funcionamento, a mídia pode fazer o que quiser. E este é o problema, a falta de regulação,” diz Cardoso.

Essa é uma das questões que ela espera que a Dilma resolva uma vez assumido o poder. Mas ela terá um longo caminho à frente. Centenas de políticos brasileiros por todo o país são parceiros ou diretores de mídia. Dezenas de senadores e representantes do congresso têm profundas ligações com a mídia corporativa. (6) É um lobby forte e uma voz poderosa.

Em setembro, o presidente Lula criticou a mídia por agir “como partidos políticos.” A imprensa brasileira respondeu que ele estava tentando limitar a liberdade de expressão. O presidente da Agência Inter-Americana de Imprensa (IAPA Inter-American Press Agency), Alejandro Aguirre, chamou os comentários do Lula de “perigosos”.

“Nós estamos muito preocupados com a situação no Brasil. Em outras declarações nós expressamos isso, mas estamos esperançosos de que a pessoa que substituir o Sr. Lula da Silva como presidente respeite os direitos civis e humanos, e o direito de expressão como a pedra angular da democracia,” disse Aguirre à Globo. (7) O fato de a IAPA ter as suas próprias ligações históricas ao “oligopólio” e às antigas ditaduras latino-americanas foi ignorado. (8)

Existe um crescente movimento de democracia de mídia no Brasil. Em dezembro do ano passado, 1500 representantes da mídia independente e comunitária do Brasil encontraram-se para o primeiro Congresso Nacional de Comunicação. O objetivo era dar os primeiros passos em direção a algo como a nova lei argentina de mídia aprovada no ano passado.

A lei argentina destinou dois terços do espectro de rádio e TV para estações não-comerciais, e requereu que os canais utilizassem mais conteúdos argentinos. Também obrigou a companhia de mídia líder do país, Grupo Clarin, a vender várias das suas holdings. (9)

Mas o Brasil ainda tem um longo caminho pela frente. O presidente Lula não apresentou nenhuma das propostas do Congresso de Comunicação para as agências legislativas do Brasil para aprovação. Qualquer presidente que o fizesse seria rapidamente desaprovado pela imprensa antagônica. “Mesmo se a Dilma vencer, ela não será capaz de tocar no modelo da mídia,” diz Cardoso, que diz ainda que a salvação é a internet.

Durante a campanha eleitoral, “blogs, sites, e o Twitter ajudaram a organizar as ruas,” diz ela. Uma das maiores razões por que “tantas coisas foram desmascaradas,” e por que ela conseguiu a retumbante vitória no domingo.

Também não atrapalha o fato de o mais importante apoiador da Dilma, o presidente cessante Lula da Silva, ter atualmente uma taxa de aprovação de mais 80%. Dilma assumirá o cargo em 1º de janeiro. Ela prometeu dar continuidade às políticas do Lula. Depois das vitórias no mês passado tanto no senado como no congresso, a coalizão política da Dilma teve uma maioria substancial tanto no nível executivo como legislativo. Dada a sua dupla vitória – nas pesquisas e sobre a campanha da mídia contra a sua candidatura – Dilma e seus apoiadores têm motivo para celebrar.

Michael Fox é jornalista freelance, repórter e produtor de documentários baseados no Brasil. Ele é co-autor de Venezuela Speaks: Voices from the Grassroots, e co-diretor de Beyond Elections: Redefining Democracy in the Americas. Seu trabalho pode ser encontrado em www.blendingthelines.com.

1. O aborto e as eleições presidenciais, Carta Capital, September 30, 2010

http://www.cartacapital.com.br/politica/o-aborto-e-as-eleicoes-presidenciais

2. http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/monica-serra-dilma-e-a-favor-de-matar-criancinhas

3. http://noticias.r7.com/eleicoes-2010/noticias/mulher-de-serra-disse-que-fez-aborto-afirmam-ex-alunas-20101016.html

4. Donos da Midia, http://donosdamidia.com.br/levantamento/politicos

5. http://www.intervozes.org.br/noticias/as-reais-ameacas-a-liberdade-de-expressão-no-brasil

6. www.intervozes.org.br

7. http://en.mercopress.com/2010/09/23/lula-s-attacks-on-the-press-dangerous-and-has-him-on-track-with-chavez

8. http://venezuelanalysis.com/analysis/3308

9. http://www.foxnews.com/world/2009/10/10/new-media-law-approved-argentina/

Um comentário:

  1. Gostei muito, está bem completa e detalhada. Incorporo tambem uma forte crítica a essa mídia brasileira, que desde os tempos da ditadura apresenta um tendenciosismo evidente e mesmo assim se diz imparcial. Isso me fez lembrar também a eleição do Obama, na qual foram apresentadas as mesmas situações.
    Abraços
    Rodrigo
    PET-ECONOMIA/UFF

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